Alma Carioca

História Veterinária

José Carlos Pereira

No Curso de Veterinária, Lurdes aprendeu algumas técnicas para ordenha de vacas. Além dos óbvios procedimentos sanitários, havia um capítulo especial sobre estresse bovino, com recomendações sobre música suave durante a ordenha para induzir tranquilidade nos animais. Lurdes estudou, aprendeu, mas nunca se importou com a matéria. Seu plano era ficar rica com uma clínica elegante e sofisticada cuidando de poodles, malteses, beagles e chihuahuas; também imaginava felinos - angorás, siameses e tonquineses - talvez até calopsitas.

Como era de se esperar, os planos de Lurdes não deram certo e a garota veterinária de Ipanema terminou no interior de Goiás em uma grande fazenda produtora de leite; o emprego era bom e com ótimo ambiente de trabalho, mas Lurdes detestava o cheiro dos estábulos e se perturbava com aquele olhar enviesado dos bovinos.

Havia sistemas de som instalados nos vários galpões de ordenha, mas Lurdes e seus três colegas veterinários não levavam a sério a relação entre cérebros e tetas de vaca com linguagem musical. Preferiam o silêncio com mugidos. Mas, como o sistema existia e tinha que ser usado, a peãozada se encarregou de fazer as vaquinhas curtirem um sertanejo baixinho.

Tudo ia bem até que Lurdes, ainda sonhando com poodles, foi selecionada por uma instituição de pesquisa para produzir um trabalho exatamente sobre a relação vaca/música/produtividade de leite. A indicação foi acidental, mas, mesmo sem acreditar, ela percebeu sua oportunidade acadêmica. Depois de alguma pesquisa, desenvolveu um modelo matemático para relacionar litros de leite por vaca por dia com tempo de exposição sonora por vaca, intensidade de som e modelo musical.

Iniciou a pesquisa com os dados já conhecidos: x litros/y vacas/dupla sertaneja/decibéis. Considerando fixo o número de vacas e estabilizado o volume de som, as variáveis ficaram com litros e música. Lurdes desenvolveu uma matriz em seu computador e selecionou “Pour Elise” de Beethoven para início de teste. A peãozada não gostou, as vacas ignoraram e a produção se manteve inalterada. Beethoven foi então substituído por Bach e sua “Aria de Capo”. Mesmo resultado. Lurdes continuou apostando em Bach e trocou “Capo” pela “Tocata e Fuga em Ré Menor”. A produção se manteve, mas, claramente, as vacas ficaram mais agitadas. Lurdes decidiu testar a variável com mais andamento e entrou com a “Marcha Turca” de Mozart. A produção se manteve, mas a agitação aumentou e cinco peões receberam coices. Lurdes imaginou os estragos se entrasse com Lady Gaga; decidiu então aplicar uma mudança brusca, retirando a batida militar da “Turca” e retornando a Beethoven e sua “Moonlight Sonata”. Surpresa geral – redução drástica de mugidos, calma profunda nos animais, com relatos de vacas fechando os olhos aparentemente para se concentrarem na audição. E o mais importante – aumento de 1,6% na produção. Para um PIB, muito pouco, para aumento salarial, greve na certa, mas para tetas de vaca um resultado considerável.

Lurdes apresentou seu trabalho, foi elogiada, ganhou um diploma e recebeu citações. Paralelamente, também ganhou o título de encantadora de vacas, e “Moonlight Sonata” foi eleita como autêntica mensagem para boi dormir (vacas, no caso).

O sucesso de Lurdes chegou a um grupo veterinário do Rio de Janeiro em busca de um profissional para um grande empreendimento com cães, que estavam implantando. Quando soube que pagariam até um pouco mais, não pensou duas vezes, aceitou tudo e voltou para sua querida Ipanema.

Lurdes está muito bem, prestigiada e com ótimo salário, mora a três quadras da praia, casou-se com um colega e vivem muito felizes. 

No entanto, lá nas profundezas de seu cérebro instalou-se uma frustração existencial: o local em que trabalha não fica em Ipanema, mas na baixada fluminense e é, de fato, uma empresa especializada no treinamento de coléricos cães de guarda. Nada de poodles, angorás ou calopsitas, e um pesadelo recorrente inferniza seu sono - um truculento rotweiller, preso em uma ordenha, mugindo para Beethoven, miando para Mozart e com olhar fixo nela.

Um psiquiatra considerou seu caso normal e recomendou que se distraísse treinando um poodle como cão de guarda, mas sem música.

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