Alma Carioca

Depressão e ansiedade

José Carlos Pereira

Sempre passava das três da madrugada quando Dorival, 55 anos de vida e 15 de viuvez, apagava a luz do quarto, ajustava a cabeça no travesseiro e puxava o cobertor para o pescoço. Fazia isso como mero hábito; já tinha perdido qualquer esperança de dormir e não mais acordar. Há meses nutria a expectativa de morrer dormindo. Seu problema era que não admitia deixar a vida com sofrimento - corpo esmagado por um viaduto, bala perdida ou certeira, ser encontrado por cães farejadores, muito menos perceber a expressão de alguma enfermeira denotando caso encerrado. Dorival queria apenas não acordar, mas para isso tinha que dormir. E sempre que dormia passava pelo desespero do despertar, pela frustração e constrangimento de não ter conseguido. O acúmulo de fracassos fez Dorival temer o próprio ato de adormecer, diante da perspectiva de mais um horrível despertar. Caso complicado até para o Freud.

Dorival morava com Sílvia, 27, sua filha única, solteira e charmosa, em uma casa pequena, mas bonita e aconchegante, na margem de uma movimentada rodovia e no sopé de um morro da região serrana que abrigava uma belíssima mostra de mata atlântica. Foi sobre pressão irresistível da filha que terminou em um psiquiatra do SUS que diagnosticou depressão e ansiedade, receitou uns comprimidos e encerrou o assunto. Os comprimidos até melhoraram a ansiedade, mas o preço deles aumentou a depressão. Com a filha dedicada, Dorival, sob protesto, seguiu para um psicólogo, mas usou o seu direito constitucional de permanecer em silêncio.

O passo seguinte foi uma igreja reconhecida pelos espantosos milagres televisados. E, realmente, um milagre ocorreu – Dorival adormeceu tranquilamente durante a pregação de um pastor monocórdio. O cochilo durou pouco mais de 15 minutos mas encheu Sílvia de esperança. Rapidamente, ela conseguiu três horas de gravações da igreja e montou um estúdio de som para embalar o papai. O efeito foi surpreendente – o pastor gravado não era o monocórdio e conquistou o coração e a mente de Dorival. Ele não perdeu o medo de morrer sofrendo, mas ampliou a vontade de morrer para estar logo na presença do Salvador. Antes, queria apenas deixar de existir, agora, estava obcecado por uma nova existência. Dorival queria dormir só e acordar na presença dEle.

O sofrimento seguia sua rotina quando Sílvia viajou a serviço da empresa em que trabalhava, e Dorival ficou só na casa bonita e aconchegante, mas já estava acostumado às ausências eventuais da filha.

Não se sabe se Dorival sentiu alguma dor naquela madrugada de quarta-feira, nem sequer se acordou com a trovoada ou quando o morro inteiro veio abaixo e soterrou sua casa e a rodovia. Seu corpo foi encontrado cinco dias depois por um cão farejador da polícia, estava mais esmagado que bagaço de cana em usina de álcool. Retiraram de Sílvia um pouco de sangue para identificação por DNA, embora ela tivesse certeza que aquele bagaço de corpo era de seu pai devido aos restos de um pijama que fora seu presente de aniversário para ele.

O resultado do DNA foi explosivo, simplesmente mostrou que Sílvia não era filha de Dorival. Houve provas e contraprovas no exame, mas finalmente foi aceita a evidência científica. Sílvia conseguiu barrar o estado de choque concentrando-se nas lembranças de sua mãe, morta quando ela tinha apenas 10 anos. Mesmo entrando em depressão, foi forte e esperta para agir e receber uma pequena indenização do governo e a pensão de Dorival - o DNA dizia uma coisa, mas a certidão de nascimento dizia outra, e a lei é clara sobre a matéria. 

Sílvia sentiu agravamento no seu quadro psicológico e buscou assistência especializada. Um psiquiatra receitou o mesmo comprimido de Dorival, e uma psicóloga aconselhou-a a tentar encontrar seu verdadeiro pai pelo facebook. Sílvia não tomou os comprimidos, mas iniciou a busca no face. Até agora nada encontrou, mas já tem 440 amigos, entre vítimas de deslizamentos, depressivos variados, impactados por DNA, suicidas potenciais, indignados com a desordem urbana e revoltados em geral. Sílvia já está quase curada da depressão e considera-se uma garota de sorte, dividindo um apartamento com uma amiga de infância.

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